Uma carta aberta assinada por pesquisadores de universidades brasileiras questiona a decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) que reconheceu a legalidade do abate de jumentos no país, prática associada à exportação de pele destinada à China. O documento pede a revisão do entendimento judicial e aponta riscos ambientais, sanitários e econômicos ligados à atividade.

Entre os signatários estão docentes e pesquisadores ligados a instituições como a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal da Bahia (UFBA), a Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). O grupo afirma que a continuidade do abate pode acelerar a redução do rebanho e ameaçar o que classificam como patrimônio genético e cultural do Nordeste.

A decisão mencionada pelos pesquisadores foi proferida em dezembro de 2025. Para os cientistas, porém, o debate não deveria se limitar à legalidade do procedimento, já que envolve conservação da fauna, controle sanitário e impactos sobre a diversidade genética de um animal historicamente associado ao semiárido brasileiro.

Segundo a carta, o abate atualmente ligado ao comércio internacional de pele não está apoiado em uma cadeia produtiva estruturada. Na avaliação dos autores, a atividade depende principalmente da captura ou do recolhimento de animais já existentes, sem um sistema consistente de criação e reposição populacional.

O jumento pode entrar em extinção?

Os pesquisadores citam dados atribuídos a bases como a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o sistema Agrostat, do Ministério da Agricultura, que indicam redução de cerca de 94% na população de jumentos no Brasil entre 1996 e 2024. Para o grupo, a velocidade da queda levanta dúvidas sobre a sustentabilidade do modelo atual.

Eles observam que a reposição populacional é lenta. A gestação do jumento dura cerca de 12 meses e o ritmo reprodutivo da espécie não acompanha um cenário de abate intensificado.

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Qual o grande interesse da China pelo jumento?

O avanço da atividade é associado pelos pesquisadores à demanda chinesa por ejiao, um derivado de colágeno extraído da pele do animal e utilizado na medicina tradicional do país asiático.

Segundo o documento, a pressão do mercado internacional teria aumentado com a expansão do consumo desse produto. Ainda assim, os autores afirmam que o peso econômico da atividade é reduzido. A carta sustenta que o comércio representa menos de 0,000003% das exportações brasileiras.

O negócio com a China é sustentável?

A mobilização também menciona o estudo “Viabilidade Econômica do Abate de Jumentos na Bahia”, conduzido pelo professor Roberto Arruda de Souza Lima, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP).

Segundo a análise citada, o país não possui um sistema estável de criação de jumentos voltado ao abate em escala comercial. Faltariam elementos considerados básicos para uma cadeia produtiva estruturada, como manejo reprodutivo planejado, reposição regular de plantel e previsibilidade de oferta.

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Nesse cenário, a disponibilidade de animais dependeria principalmente da captura ou recolhimento, característica que os pesquisadores classificam como um modelo extrativista.

Qual é a preocupação sanitária?

A carta também levanta preocupações sanitárias. De acordo com os signatários, a ausência de rastreabilidade ampla pode ampliar riscos quando animais são capturados, transportados e concentrados sem histórico sanitário documentado.

Os pesquisadores citam um estudo publicado em 2025 na revista científica Animals, que avaliou 104 jumentos destinados ao abate por meio de exames físicos e análises laboratoriais. A pesquisa identificou sinais compatíveis com má condição corporal e inflamação sistêmica na maioria dos animais observados.

A conta não fecha

Outro ponto mencionado no documento envolve possíveis divergências entre o número de animais abatidos e o volume de peles exportadas. Segundo os pesquisadores, o peso médio das peles embarcadas nos últimos dez anos teria sido de cerca de 3,8 quilos por unidade, abaixo do esperado em avaliações técnicas.

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Para os autores da carta, o dado não permite conclusões definitivas, mas indicaria a necessidade de investigação sobre possíveis falhas de registro ou inconsistências comerciais.

Diante desse cenário, os pesquisadores defendem a suspensão do abate em todo o território nacional até que sejam estabelecidas políticas de conservação e mecanismos de controle mais robustos. O grupo também propõe o reconhecimento do jumento nordestino como patrimônio genético e cultural do país.

CNN Noticias

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